quarta-feira, 25 de julho de 2012

Pássaro Verde

Não havia palavras que amarrassem, com precisão, o contorno e a textura da ocasião. Não havia sentido em dizer do inédito, da novidade... mas coisa igual é rara, irrompe sem piedade.

Que diabos fazer com aquilo, afinal? Diabos?! Parecia coisa de Deus -- esse assalto no peito que enche de vida e implanta um mau jeito; essa voz que acalenta e envolve nos braços!

Ah!, que coisa ter de ser e antever o perigo! Que coisa abrir espaço para o que consente em desatar o laço!

Mas não é besteira, não, e não é capricho ou invenção!... E quem duvidaria? A não ser o risco que assombra o desejo, não há o que faça pestanejar essa alegria!

De inefável a verbo, viu-se uma apertada mas maravilhada expressão -- um canto de quem vive o encanto de se entregar, e um voo de quem quer mas não sabe quando chegar.

Que o vento sopre e o baile se faça, e que a dança não roube o sorriso e a graça.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

De que vale?

De que vale mostrar saudade, se o embalo que leva não pode fazer voltar?
De que vale pedir perdão, se não havia alternativa para o que estava por vir?
De que vale agradecer, se a vontade que viu não nasceu do favor?
De que vale dizer que amou, se não entende metade do que dizem por lá?

sábado, 10 de dezembro de 2011

Antes que seja tarde: uma previsão

Queria não ter erguido os ombros,
e não amado e orado e deixado de lado
o que vi e senti no passado.
Que tudo é repetição: o descuido,
o descaso, o acaso e a remissão.
E tudo é o caso de tentar prever
e a expectativa não condizer.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Do cinza que a varanda me traz

O ser triste, trazido por distância, que traz insegurança, traz o cigarro; e o cigarro, mais tristeza. E a fragilidade incide, e o pensamento lá em você, e tudo em mim divide.

domingo, 21 de agosto de 2011

Caixa de lembranças

O que há para que se guarde no fundo as lembranças suaves e a razão de ver e tocar e cheirar? O que há para que se entulhe por cima o desgosto, a poeira e o assento e a mesa vazios?

Uma lanterna, uma vara de pescar e uma porção de esperança resumem o meio de prover o resgate; e a calma, a perseverança e o brilho que emana do fundo devem evitar o desgaste.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Deste tempo

Como pode ser, ao mesmo tempo, nova e repetitiva essa vontade de estar e sonhar e cantar a dois? Como pode vir, ao mesmo tempo, o entrar e o sair da voz e das mãos que parecem jogar? Como pode ter, ao mesmo tempo, cuidado e desprezo com a sorte de poder se encontrar de novo? Como pode, afinal e ao mesmo tempo, sonhar com a estrada que mira o eterno e encurtar a vista de firmar raiz em terra breve?

Pode ser de o tempo dizer.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Renamoro

Vai ver que inventei todo o amor que tinha outrora encontrado,
na espera que a espera cessasse e trouxesse o achado,
o beijo roubado, o sentido de todo o pecado.

Vai ver que sei antever o que vinha dizer,
e queria também fazer notar
e lhe dar algo mais que um breve prazer.

Vai ver que mudei o mundo e queria entender a outra face
e arrancar o disfarce, e que toda essa história
de engano e ciúme seja charme de um destino
que me lev'onde sabe.