domingo, 20 de dezembro de 2009

Do diário de amanhã

Acordei animado, tive aula de pintura e comprei um aquário — sempre gostei de peixes. Tomei minha vitamina de açaí, fiz uma laranjada e descasquei mandioca. Mamãe e papai vieram do sítio.

Terminei de escrever um texto para o jornal da cidade. Fui sondar em que pé estava reforma do meu consultório. Se os negócios continuarem bem, logo comprarei meu apartamento.

Heloísa e eu corremos ao entardecer. Pairaram-nos planos atípicos para o ano vindouro. Jantamos para comemorar.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

(...)

Procura o eterno, o derradeiro, corre como quem não alcança. Mesmo que haja, daqueles que ficam até a morte, não escapa a solidão e o receio. Não é o tempo.

Encontra aconchego, segurança e sexo. Acorda e deixa partir sem entender. Não é negligência.

Tenta escrever, perde as palavras e as chaves, a calça deixa caída e a pia, entupida. Não é caos. Caos é palavra de uma só pessoa.

Cai lento, deita na poeira, aguarda socorro.






Mas lembra dos horizontes distantes, fita o destino e rema. Sabe que vai chegar.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Para que a paixão não cesse

Até quando uma jarra de café trará o mesmo sabor, o mesmo tom, a mesma emoção? Até quando continuarmos a usá-la pelos mesmos meios e para os mesmos fins? Que tal lancharmos no chão, na cama, no banheiro? Que tal reinventarmos a vida a cada sol que desponta no céu?

Wish you were here

Entre vales e picos passa o corpo caído e erguido, como que dormindo e acordando, não obstante os ruídos da rua que marcam o espaço, partindo e voltando no tempo. Lembrou-se do cigarro, do banheiro público, do receio propulsor do trabalho e do sexo. Quase maníaco. Deita o álcool que cessa. Quase deprimido.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Noite com mais um Zaratustra

Não estive só ao fazer a subida. O sol, quente que esteve, queimou algo mais que o meu rosto branco. Mais tarde, com frio, me aqueceu a esperança de descer e reproduzir o que vi lá de cima. Aqueceu a eles também, em tempos e lugares distintos — e tiverem esse mesmo desejo.

embaixo, em meio ao rebanho, os que me ouviram abriram riso. Sozinho, recolhi-me ao rebanho do morro, aos mais virtuosos e sagazes que jamais encontrara. Depois de incontáveis brigas, nos agregamos ao outro rebanho e nivelamos vales e picos mediante uma única voz: o amor. E a paz reinou até o momento em que começamos a desafiar de novo a ignorância.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Mais uma volta

Agora — mais próximo do aconchego pródigo, do ouvido limpo e dos canais. Essa casa que me acalenta o corpo, porém arrebenta o nariz, me traz de volta ao ninho do canto, da comida boa. As espinhas abaixam, o cabelo se ajeita, a vontade de ficar me toma a cabeça. Como poderia ser diferente? Os bichos caseiros me querem com olhos e boca, e eu os quero com devido respeito — e cautela. Já não parece quem me fez desacreditar, chorar, partir... Pois já não sou quem desacreditou, chorou e partiu.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Só diz

que vai aguentar o sufoco,
a sonolência mórbida
de quem foi aterrado
pelo tempo
— por si mesmo.

Não diz
que estou correto,
que descrevo com clareza
o que se passa ao redor.

Diz que
me esqueci de acordar;
diz que
vai passar.